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ZH: “Fraudes reduzem sustentabilidade do leite”

CAMPO E LAVOURA | ZERO HORA | PÁGINA 7C

Pela primeira vez no Rio Grande do Sul, o Congresso Internacional do Leite reunirá nesta semana, em Porto Alegre, produtores, indústrias, estudantes e pesquisadores. Um dos palestrantes, Pedro Arcuri, articulador da Embrapa na FAO, falará sobre a sustentabilidade do setor. Em entrevista a ZH, ele defendeu mudanças como a melhoria da qualidade do leite para o Brasil ter papel maior no mercado mundial de lácteos.

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Como a sustentabilidade na pecuária leiteira é vista no cenário internacional?

Nos principais países produtores de leite e lácteos, o conceito de sustentabilidade é tratado como uma necessidade e, ao mesmo tempo, excelente oportunidade de negócios. O termo “sustentável”, em uma abordagem de atividade agropecuária, descreve sistemas de produção que sejam capazes de manter sua produtividade e utilidade para indefinidamente. Para isso, diversas instituições de produtores e indústrias, institutos de pesquisa e organismos de cooperação multilaterais propõem que as atividades produtivas sejam monitoradas quanto a indicadores ambientais, econômicos, e sociais. Isso permite que ajustes sejam feitos em diferentes etapas produtivas, de modo a garantir uso racional e eficaz dos recursos naturais, lucratividade e equidade social.

Como o Brasil pode aumentar as exportações do setor lácteo, ainda tímidas?

Na minha opinião, para o Brasil se tornar um exportador importante de leite, alterações estruturais significativas devem ocorrer na cadeia produtiva. A primeira delas é a melhoria da qualidade do leite entregue para processamento. Outra medida é uma maior organização da governança do setor, de modo que critérios de sustentabilidade sejam estabelecidos e cumpridos por todos os envolvidos.

Com a sexta maior produção de leite do mundo atualmente, o Brasil está bem distante dos líderes em produtividade. O que pode ser feito para tentar diminuir essa diferença?

É importante considerar que a maior parte da produção leiteira brasileira ocorre em áreas de clima tropical e em solos, em geral, pobres e ácidos. Portanto, esse tipo de ambiente é muito mais complicado para a atividade agrícola de um modo geral e, em especial, para a atividade leiteira. Por isso, provavelmente, nossa produtividade, com lucratividade, não atingirá os níveis dos países temperados com sistemas intensivos à base de confinamento praticamente exclusivo. Por outro lado, ao se monitorar propriedades, indústrias e serviços por indicadores de sustentabilidade, nota-se que é possível alcançar produtividade média maior.

As barreiras sanitárias limitam a expansão do setor para novos mercados?

Sim, mas partindo do conceito mais amplo da qualidade do leite entregue para processamento.

O que é possível fazer para aumentar a qualidade do leite e o lucro do produtor?

Considero que se deve investir em educação, com criação de capacidades e competências para qualificar todo o tipo de mão de obra envolvido e garantir um elevado nível de governança. Creio ser fundamental o comprometimento com o conceito de sustentabilidade, a exemplo da Nova Zelândia e de outros países, para usar a metodologia de avaliação de indicadores de sustentabilidade que assegurem rentabilidade tanto do produtor quanto aos demais elos, respeitando ambiente, leis e regras comerciais brasileiras e internacionais.

O grande desafio da atividade é a profissionalização?

O Brasil é um país de contrastes. O setor leiteiro tem elevados níveis de profissionalização, que resulta na decisão de compra dos consumidores pelos inúmeros lácteos à venda. Mas muitos produtores ainda não reconhecem a importância de adotar tecnologias que irão permitir a intensificação sustentável da atividade, fragilizando, assim, toda a cadeia produtiva. Outros, intermediários e alguns poucos industriais inescrupulosos que fraudam leite e lácteos, igualmente reduzem a sustentabilidade do setor. E ainda há aqueles que deixam de pagar direitos sociais e desrespeitam leis, em vez de pressionarem seus representantes no Congresso para ajustarem estas leis à realidade atual. Todos esses constituem o contraste aos verdadeiros profissionais. A transformação desses em pessoas compromissadas, que sustentem o desenvolvimento do setor, constitui o maior desafio.

Como funcionam os indicadores de sustentabilidade da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e como podem ser aplicados no Brasil?

A FAO coordena desde 2010 a Parceria para Avaliação Ambiental da Pecuária, para a qual a Embrapa contribui. O objetivo é realizar avaliações comparativas do desempenho ambiental de cadeias produtivas pecuárias. O resultado esperado é reduzir a confusão que pode ocorrer em razão da proliferação de metodologias para avaliação de impactos, especialmente os relacionados à questões ambientais. E, ainda, oferecer alternativas para melhorar o desempenho ambiental de sistemas de produção pecuários. Um primeiro resultado é a publicação Desempenho ambiental das grandes cadeias produtivas de ruminantes: diretrizes para avaliação. O documento servirá para estabelecer normas para o cálculo de uso de água, de combustíveis fósseis e da emissão de gases causadores de efeito estufa em cadeias produtivas de ruminantes.